quinta-feira, 28 de outubro de 2010

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"Imagine que você precisa quebrar o braço de alguém.
Não interessa se é o direito ou o esquerdo. O ponto é que você precisa quebrá‑lo, porque se não o fizer... Bom, isso não importa também. Vamos dizer que coisas ruins vão acontecer se você não fizer isso.
O que quero perguntar é o seguinte: você quebraria o braço da pessoa rapidinho – tipo crack, oops, desculpe, deixa eu ajudar você com esta tala improvisada – ou prefere fazer aquele serviço completo que dura uns bons oito minutos, aumentando a pressão aos poucos, até que a dor fique rosa e verde e quente e fria e tudo isso junto, o que a torna dolorosamente insuportável?
Exatamente. É claro. O certo a fazer, a única coisa a se fazer, é resolver a coisa logo, o mais rápido possível. Quebre o braço, ofereça um conhaque e seja um bom cidadão. Não pode haver nenhuma outra resposta.
A menos que.
A menos que, a menos que, a menos que...
E se você odiasse a pessoa do braço? Quero dizer, se odiasse muito, mas muito mesmo.
Isso era algo que eu tinha que considerar agora.
Quando digo agora, quero dizer naquela hora, naquele momento em que eu estava querendo descrever; o momento em câmera lenta, ah, maldita câmera lenta, antes de o meu punho alcançar a parte de trás do meu pescoço e meu úmero esquerdo se quebrar em pelo menos dois, ou muito possivelmente mais, pedaços moloides presos um ao outro.
O braço do qual estávamos falando, como pode ver, era o meu.
Não é um braço abstrato, filosófico. O osso, a pele, os pelos, a pequena cicatriz branca no cotovelo, ganha da quina de um armário na Escola Primária de Gateshill – tudo isso pertence a mim. E agora é o momento no qual devo considerar a possibilidade de que o homem atrás de mim, prendendo meu braço e o levantando pelas minhas costas com um cuidado quase sexual, me odeia.
Quero dizer, me odeia muito, muito mesmo.
Ele está fazendo isso há uma eternidade. [...] "



O vendedor de armas, por Hugh Laurie

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